Presidente da Sociedade Beneficente Cultural Floresta Aurora é entrevistado pela Dra. Letícia Barbosa em pesquisa de doutorado da UFRGS sobre memória, trajetória e experiências da população negra na capital gaúcha Preservar a memória também é uma forma de resistência. É a partir dessa perspectiva que a história da população negra de Porto Alegre vem sendo revisitada e registrada por meio de pesquisas acadêmicas que procuram recuperar personagens, instituições, espaços de sociabilidade e experiências que foram fundamentais para a construção da cidade, mas que durante muito tempo permaneceram à margem das narrativas oficiais. É nesse contexto que o presidente da Sociedade Beneficente Cultural Floresta Aurora, Luiz Augusto Santiago, participou de uma entrevista conduzida pela Dra. Letícia Barbosa, pesquisadora vinculada à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A entrevista integra o projeto de pesquisa desenvolvido pela pesquisadora em seu Doutorado na UFRGS e fará parte da construção de uma memória acadêmica sobre a trajetória da população negra e do Movimento Negro em Porto Alegre. A conversa integra o universo do “Razão Negra em Voz Alta”, iniciativa dedicada à recuperação de memórias, histórias, experiências e vozes do Movimento Negro na capital gaúcha. Entre os temas abordados estão aspectos da trajetória da população negra no período pós-abolição, a atuação da imprensa negra, as transformações urbanas ocorridas entre o final do século XIX e o início do século XX e os espaços de moradia, sociabilidade, organização e resistência construídos pela população negra. A imprensa negra teve papel fundamental nesse processo. Periódicos produzidos por jornalistas e intelectuais negros funcionaram como importantes instrumentos de comunicação comunitária, denunciando situações de discriminação, reivindicando direitos, valorizando a educação e questionando concepções raciais que procuravam colocar a população negra em posição de inferioridade. Pesquisas sobre a história negra de Porto Alegre mostram que jornais, associações, clubes e outras organizações formavam uma verdadeira rede de sociabilidade e mobilização da comunidade negra. A própria história da Floresta Aurora está inserida nesse cenário. Fundada em 31 de dezembro de 1872, dezesseis anos antes da abolição oficial da escravidão no Brasil, a Sociedade surgiu como uma associação negra de caráter beneficente e mutualista. Estudos acadêmicos apontam que a entidade reunia pessoas negras em atividades de sociabilidade, manifestações culturais, ações políticas e iniciativas de solidariedade, constituindo-se em um importante espaço de organização da comunidade negra porto-alegrense. Ao longo de sua trajetória, o Floresta Aurora ultrapassou a função de espaço recreativo e beneficente. A instituição tornou-se lugar de memória, cultura, identidade, resistência, convivência e organização social. Registros históricos mostram, por exemplo, a presença da Sociedade nas comemorações relacionadas à emancipação da população negra e sua relação com a imprensa negra, incluindo registros publicados pelo jornal O Exemplo, um dos mais importantes periódicos negros de Porto Alegre. Em 1904, o periódico publicou anúncio de uma apresentação realizada na Floresta Aurora durante as comemorações do 28 de Setembro. É justamente essa dimensão histórica que torna a entrevista com Luiz Augusto Santiago especialmente significativa. Ao falar sobre a Floresta Aurora, o atual presidente não está apenas apresentando a história de uma instituição: está contribuindo para registrar a memória de uma comunidade que encontrou, ao longo de mais de 150 anos, diferentes formas de enfrentar o racismo, preservar sua identidade, construir redes de solidariedade e ocupar espaços na sociedade porto-alegrense. A importância desse trabalho de preservação da memória também pode ser percebida em pesquisas acadêmicas recentes. Estudos desenvolvidos no âmbito universitário destacam que os clubes sociais negros foram espaços fundamentais de resistência e sociabilidade, especialmente diante das restrições impostas à população negra no período pós-abolição. A Floresta Aurora aparece nessas pesquisas como um dos principais marcos da história da comunidade negra de Porto Alegre. A entrevista também dialoga com a própria tradição do Grupo Cultural Razão Negra, cuja trajetória integra pesquisas sobre o Movimento Negro de Porto Alegre. Registros contemporâneos apontam a atuação do grupo entre 1976 e 1986, período de intensa mobilização cultural e política da juventude negra porto-alegrense. A recuperação dessas experiências demonstra a importância de preservar não apenas documentos oficiais, mas também as memórias e narrativas daqueles que participaram diretamente da construção do Movimento Negro na cidade. Para a Sociedade Beneficente e Cultural Floresta Aurora, participar desse processo de pesquisa significa reafirmar uma responsabilidade histórica: preservar, contar e transmitir sua própria história para as novas gerações. Uma instituição que atravessou três séculos de história brasileira não pode ser compreendida apenas por suas datas, sedes ou eventos. Sua verdadeira dimensão está nas pessoas que a construíram, nas famílias que nela encontraram acolhimento, nas lutas que ajudou a enfrentar e nas gerações que mantiveram viva sua existência. O registro dessa entrevista, portanto, ganha um significado especial. A voz de Luiz Augusto Santiago se soma a outras vozes que ajudam a construir uma narrativa mais completa sobre a população negra de Porto Alegre. É a memória contada por quem vive, participa e mantém uma instituição histórica em funcionamento — uma memória que agora também passa a integrar uma pesquisa acadêmica desenvolvida no âmbito da UFRGS. FLORESTA AURORA: MEMÓRIA QUE CONTINUA VIVA A Sociedade Beneficente Cultural Floresta Aurora está diretamente ligada a essa história. Fundada em 1872, ainda durante o período escravista, a entidade atravessou a Abolição, a República, diferentes transformações sociais e urbanas de Porto Alegre e mais de 150 anos de mudanças na sociedade brasileira. Hoje, permanece como espaço de cultura, convivência, identidade, resistência e preservação da memória negra. O próprio site institucional destaca sua trajetória como uma referência histórica na valorização da comunidade afro-brasileira. Ao receber a entrevista de sua atual presidência para integrar uma pesquisa de doutorado, a Floresta Aurora reafirma aquilo que sua história ensina há mais de um século e meio: não existe futuro sem memória, e não existe memória verdadeira sem dar voz a quem construiu essa história. A entrevista de Luiz Augusto Santiago à Dra. Letícia Barbosa representa, assim, mais um registro de uma história que precisa continuar sendo contada — a história da população negra de Porto Alegre, a história do Movimento Negro e, inseparavelmente, a história da Sociedade Beneficente
Petronilha Gonçalves e Silva: Uma Nova Voz Negra na Academia Rio-Grandense de Letras
A eleição da professora e intelectual gaúcha representa reconhecimento, memória e fortalecimento da representatividade negra na cultura e na produção intelectual do Rio Grande do Sul A eleição, por unanimidade, da professora doutora Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva como nova integrante da Academia Rio-Grandense de Letras, em 27 de agosto de 2026, representa um momento de grande significado para a cultura, a educação e a população negra do Rio Grande do Sul. Mais do que o reconhecimento de uma trajetória acadêmica e intelectual extraordinária, sua chegada à Academia amplia a presença e a representatividade negra em um espaço historicamente marcado por uma participação muito mais restrita da população negra. Gaúcha de Porto Alegre, Petronilha construiu uma trajetória que ultrapassa os limites da universidade. Professora, pesquisadora e intelectual de reconhecido prestígio nacional e internacional, dedicou grande parte de sua vida à educação, às relações étnico-raciais e à valorização da história e da cultura afro-brasileira. Sua atuação no Conselho Nacional de Educação foi especialmente marcante: indicada pelo Movimento Negro, tornou-se a primeira mulher negra a integrar o órgão e foi relatora do parecer que deu origem às Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, relacionadas à implementação da Lei 10.639/2003. A importância desse reconhecimento ganha ainda mais dimensão quando observamos a presença da população negra no próprio Rio Grande do Sul. De acordo com o Censo Demográfico 2022 do IBGE, o Estado possuía 709.837 pessoas autodeclaradas pretas e 1.596.357 autodeclaradas pardas. Juntas, essas populações representam aproximadamente 21,2% dos habitantes do Rio Grande do Sul. Ou seja, mais de dois milhões de gaúchos e gaúchas fazem parte dessa população. Por isso, a chegada de Petronilha à Academia Rio-Grandense de Letras não deve ser compreendida apenas como uma conquista individual. É também uma conquista coletiva. É o reconhecimento de uma intelectual negra que ajudou a transformar a maneira como o Brasil debate educação, identidade, cultura e relações raciais. É, igualmente, a afirmação de que a produção intelectual negra faz parte da história e do presente do Rio Grande do Sul e deve ocupar todos os espaços de conhecimento, cultura e decisão. Sua trajetória também está profundamente ligada à história da organização e da resistência negra no Rio Grande do Sul. A Sociedade Beneficente Cultural Floresta Aurora, fundada em Porto Alegre em 31 de dezembro de 1872, ocupa lugar fundamental nessa história. Ao longo de sua existência, a entidade não foi apenas espaço de convivência e sociabilidade: também se constituiu como lugar de educação, cultura, resistência, construção de identidade e fortalecimento da comunidade negra. Estudos sobre a história da educação negra no Estado registram, inclusive, a realização pelo Floresta Aurora de importantes encontros nacionais sobre a realidade da população negra na educação, nas décadas de 1980, com participação de Petronilha e de outros importantes intelectuais e educadores. Essa relação entre Petronilha e o Floresta Aurora permaneceu viva ao longo das décadas. Em 2022, durante as comemorações dos 150 anos da Sociedade Floresta Aurora, a professora participou do Seminário Internacional Clubes Sociais Negros: vivências, memórias, história e patrimônio. No dia 30 de setembro daquele ano, realizou a conferência de encerramento do evento, justamente com o tema “Floresta Aurora: herança, fortaleza, construção do futuro”. A conferência sintetiza, de certa forma, a própria relação entre sua trajetória intelectual e a história da entidade: memória, resistência, educação e construção de futuro. A ligação também está registrada em outras fontes relacionadas à memória do Floresta Aurora. A professora aparece entre os participantes e colaboradores da obra “Floresta Aurora, 150 anos fazendo história”, publicação que reúne diferentes capítulos sobre a trajetória da entidade, seus protagonistas, sua resistência, sua representação social e seu futuro. Além disso, registros históricos apontam a participação de Petronilha em iniciativas educacionais ligadas à comunidade negra gaúcha e ao próprio Floresta Aurora, reforçando que essa relação não é circunstancial, mas faz parte de uma história construída ao longo de décadas. A Sociedade Beneficente e Cultural Floresta Aurora celebra, portanto, a chegada da professora doutora Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva à Academia Rio-Grandense de Letras como uma conquista que ultrapassa os limites de uma instituição. É uma vitória da educação, da cultura, da memória e da representatividade negra. É também motivo de orgulho para o Rio Grande do Sul e, especialmente, para todas as pessoas que reconhecem na história negra gaúcha uma trajetória de resistência, inteligência, organização e contribuição decisiva para a construção da sociedade. Que sua presença na Academia seja também uma porta aberta para muitas outras vozes, histórias e saberes que ainda precisam ocupar os espaços de destaque da cultura gaúcha. Petronilha chega à Academia levando consigo não apenas sua extraordinária trajetória pessoal, mas também a memória e a voz de muitas gerações de mulheres e homens negros que ajudaram a construir o Rio Grande do Sul. E o Floresta Aurora, que há mais de 150 anos mantém acesa a chama da resistência, da cultura e da valorização da população negra, reconhece nessa conquista uma parte de sua própria história. Petronilha é, também, parte da história do Floresta Aurora — e o Floresta Aurora é parte da história que ajudou a formar a trajetória de Petronilha. FONTES DA PESQUISA
02 de junho de 2026 | Posse da Nova Diretoria Gestão 2026/2028
Momento histórico para a centenária Sociedade Beneficente Cultural Floresta Aurora: a posse da nova diretoria para a Gestão 2026/2028. 🤝 Assumiram a condução da entidade para o próximo biênio: 🔹 Luiz Augusto Santiago – Presidente🔹 Margarida Martimiano – Vice-Presidente Administrativa🔹 Paulo Rogério – Vice-Presidente Financeiro🔹 José Nery – Vice-Presidente de Patrimônio🔹 Luiz Moacir – Vice-Presidente Social 🏛️ Mais do que uma entidade social e cultural, a Floresta Aurora é um patrimônio histórico, político e cultural do Rio Grande do Sul e do Brasil. 🙏 Registramos nosso profundo agradecimento a todos os associados, colaboradores, convidados, amigos e lideranças que prestigiaram este importante ato de posse e renovação institucional. 👏 Agradecemos também aos Conselheiros eleitos, que assumem a relevante missão de contribuir para o fortalecimento da entidade, ajudando a preservar sua história e a construir seu futuro. 🌹 Nosso reconhecimento especial à Deputada Federal Reginete Bispo, cuja presença engrandeceu este momento de celebração e reafirmação dos compromissos com a igualdade racial, a valorização da cultura afro-brasileira e o fortalecimento das organizações da sociedade civil. ⭐ Registramos, ainda, nossa homenagem e gratidão ao Presidente de Honra José Flávio Rocha Silveira, liderança que dedicou parte importante de sua trajetória à construção e ao fortalecimento da Floresta Aurora. ⚠️ Mas essa missão não pertence apenas à diretoria. Ela pertence a todos aqueles que acreditam na importância da cultura, da história e da organização comunitária como instrumentos de transformação social. 🙌 Seja um Associado Colaborador 📧 secretaria@florestaaurora.org 📱 WhatsApp: (51) 9 9013-1970 ✊🏿🖤Preservar a Floresta Aurora é preservar uma parte fundamental da história do Rio Grande do Sul, da cultura afro-brasileira e da própria construção da sociedade brasileira. Floresta Aurora: passado, presente e futuro de resistência, cultura e cidadania.