Quem Somos
A Sociedade Beneficente e Cultural Floresta Aurora é a mais antiga associação negra do Brasil, dedicada a promover a inclusão social e cultural dos negros através de atividades educativas, recreativas e assistenciais desde 1872.
Referência
Em 31 de dezembro de 1872, a Sociedade Beneficente e Cultural Floresta Aurora foi fundada por negros alforriados, que encontraram a necessidade de obter recursos para, principalmente, oferecer um destino decente aos escravizados mortos. À época, essas pessoas eram enterradas em sepulturas rasas que, passados os dias, ficavam descobertas pelo vento ou molhadas pela chuva; logo os corpos apareciam e eram devorados por animais. O objetivo era, também, dar assistência a filhos e viúvas desamparados desses escravizados. Assim como os demais clubes sociais negros espalhados pelo Brasil, a associação é hoje conhecida na história do movimento negro por espaços de mútua assistência, acolhimento, sociabilidade e luta. A primeira sede da agremiação se localizava entre as ruas Aurora – atual Cristóvão Colombo – e Barros Cassal, ainda antes da Lei Áurea, que, em 1888, encerrou oficialmente a escravidão. No momento da fundação, havia ainda certa proporção de pessoas negras escravizadas; o clube tinha na sua origem, portanto, a perspectiva de velar pela luta abolicionista e se posicionar em relação à liberdade negra, atesta José Rivair Macedo, professor do Departamento de História da UFRGS e um dos mediadores do evento realizado em setembro na UFRGS que celebrou os 150 anos do clube. No período pós-abolição, o Floresta Aurora tornou-se um canal e referência para que as pessoas “de cor”, como eram nomeadas à época, pudessem realizar suas reuniões, feitas às escondidas. Apesar de, na virada do século XIX para o XX, já haver menções ao clube no jornal porto-alegrense O Exemplo – bem conhecido como imprensa negra da época e que contava com florestinos entre seus quadros –, o primeiro registro oficial do clube data de 1917, em que se apresenta o Floresta Aurora como uma sociedade beneficente e de recreação. Desde a sua fundação, o clube teve, ao todo, seis sedes situadas em pontos da capital gaúcha. A segunda sede foi na rua José do Patrocínio. Após, na rua Lima e Silva, que foi muito frequentada e lá ficou por anos. A sede com período mais curto foi no bairro Hípica. Por razões políticas, houve a necessidade de mudança para a rua Curupaiti, no bairro Cristal – segundo relatos, no ápice dos grupos jovens e das famosas festas. Atualmente, a associação se encontra na estrada Afonso Lourenço Mariante, no bairro Belém Velho. Com 200 metros de mata nativa, o clube conta com piscina, cancha de esportes, salão e área administrativa. Os primeiros endereços eram em bairros hoje nobres da cidade e, com o tempo, o clube foi se deslocando para locais mais afastados. Além das reclamações da vizinhança em função de barulho e do movimento, o fator especulação imobiliária também desempenhou um papel importante nessas mudanças. Para José Rivair, no entanto, outras explicações estão no racismo sistêmico, na gentrificação e na segregação. “Há um processo, assim como acontece com outros espaços negros de Porto Alegre, de exclusão, mas que jamais conseguiu esvaziar o clube e impedir que se mantivesse na posição de destaque e orgulho que ele tem”, complementa.
Afetos
Para os florestinos, os vínculos criados no clube tecem fortes e permanentes afetos.
É o que conta Maria Eunice da Silva, advogada que ingressou no Floresta Aurora em 1977 a convite do seu amigo e ex-presidente do clube Antônio Carlos Côrtes. Por muitos anos, foi conselheira na agremiação e também passou pela diretoria. Em 2010, tornou-se a primeira e, até então, única presidenta mulher do clube.
Ela assumiu a liderança em um período difícil para a sociedade em que questões judiciais ameaçavam a perda da sede. “Me senti responsável. ‘E se eu perder essa sede?’, eu pensava. Mas foi justamente nessa gestão que adquiri essa sede lindíssima, foi a glória”, diz, referindo-se ao atual endereço no bairro Belém Velho.
Agora conselheira deliberativa do clube, ela sempre traz à memória o que ouvia de um dos presidentes do clube: que os negros que fundaram a sociedade em 1872 não podiam se reunir e, mesmo assim, fizeram a sociedade; e que, agora, apesar de todas as dificuldades impostas, existe a liberdade que lá não havia. “Ele dizia: ‘nós temos uma obrigação com os ancestrais’. Nós temos compromisso com eles de seguir adiante, é uma herança que eles deixaram.”
“Eu não me vejo em outra sociedade que não seja o Floresta Aurora. Se os negros alforriados lutaram e conquistaram, eu, livre e formada como tantos outros negros, devo estar ali. Sinto muita energia para levar à frente esse trabalho”
Maria Eunice da Silva
José Flávio Rocha Silveira, presidente da agremiação e um dos membros mais antigos, afirma que sua relação com o clube é de paixão. Vindo da Associação Satélite Prontidão, foi convidado ao Floresta Aurora no início dos anos 60. Foi lá que conheceu sua esposa, Valmira Teixeira Silveira, em 1967, infelizmente falecida no ano de 2025. “Nós tínhamos amigas em comum, e uma delas era o cupido, a Sara, que se dava muito comigo e com ela e começou a fazer o intercâmbio”, lembra. Eles participavam dos encontros e bailes juntos e se casaram em 1975. Tiveram quatro filhos.
Marco
Referência para a comunidade negra, o clube recebeu muitas pessoas importantes ao longo dos anos, como o ex-governador Alceu Collares, e também homenageava personalidades, como João Cândido, líder da Revolta da Chibata. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, quando escrevia sua tese, em 1961, teve o clube como ponto de visita para a sua pesquisa. Com o passar dos anos, tanto o Floresta Aurora quanto as demais entidades passaram a ter um papel para além de abrigar a comunidade negra, se reconstituindo para cumprir os interesses dos sócios. Entre 1963 e 1964, a juventude tinha o hábito de se reunir na Esquina Democrática, no centro da Capital. “Nos reunimos lá, mas o Floresta Aurora estava sempre aberto para continuarmos nossas conversas, para marcar festas, fazer alguma coisa em prol da nossa juventude”, lembra Jaime Alves Núncia, antigo associado do clube. Uma das principais atividades dos membros da sociedade era o grupo Teatro Novo, com elenco composto apenas por pessoas negras e que mantinha parcerias com outras sociedades negras. As peças sempre se voltavam para as questões da negritude – uma das mais emblemáticas foi Orfeu da Conceição, de Vinícius de Morais, encenada no Theatro São Pedro. Havia apresentações na chamada “Semana do Negro”, em referência ao 13 de maio, além de exibições de escolas de samba e encenações de pequenas peças. De segunda a segunda, o anexo do Theatro era ocupado para os ensaios – até mesmo ultrapassando o tempo imposto. “A pessoa responsável por fechar o espaço sempre tinha de nos ‘correr’ para liberar o espaço”, recorda Jaime, que participou ativamente do grupo. Jaime lembra de escutar um jornalista perguntar, na última sexta-feira de apresentação no Theatro, onde estavam todos esses negros que não se viam em Porto Alegre. “Não sabiam que havia esses negros com tanta capacidade teatral para apresentarem uma peça tão bonita. Diziam que queriam mais”, recorda. As apresentações dos grupos apareciam em reportagens do jornal Folha da Manhã e Folha da Tarde. O grupo de teatro durou até o ano de 1972, mas muitas relações permanecem até hoje. “Já são 60 anos de amizade”, rememora. Alguns componentes do teatro também encabeçaram o Grupo Palmares, que protagonizou a construção da Semana da Consciência Negra. Desencadeada a revolta com a data de 13 de maio, o movimento integrado por pessoas com formação política foi lançado no Clube Náutico Marcílio Dias, outro clube social negro da capital, em um momento de grande mobilização política no país. Nomes importantes do movimento negro gaúcho eram da comunidade florestina. Um exemplo é Oliveira Silveira, um dos destaques do movimento, e Antônio Carlos Côrtes, que chegou a ser presidente da associação. “Pode-se perceber como a história da Sociedade Floresta Aurora acompanha a história da organização do movimento negro no Brasil e ocupa uma posição de protagonismo nessa história de lutas”, analisa José Rivair.