Mulheres negras enfrentam desigualdades no acesso à prevenção, ao diagnóstico e ao tratamento do câncer de mama; no Rio Grande do Sul, o desafio ganha contornos ainda mais importantes diante das elevadas taxas de mortalidade registradas no Estado
Por Alexandre Xavier – (para Sociedade Beneficente Cultural Floresta Aurora).
Todos os anos, o mês de outubro transforma o rosa em símbolo de uma das maiores campanhas mundiais de conscientização sobre a saúde das mulheres. O Outubro Rosa chama a atenção para a prevenção, a detecção precoce e o tratamento do câncer de mama.
Mas existe uma dimensão dessa campanha que precisa ser cada vez mais debatida: a desigualdade racial na saúde.
Para as mulheres negras, falar sobre câncer de mama significa também falar sobre acesso aos serviços de saúde, condições socioeconômicas, diagnóstico em tempo oportuno, qualidade do tratamento e, sobretudo, sobre as consequências de desigualdades históricas que ainda atravessam a sociedade brasileira.
Dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) mostram que as mulheres negras apresentam maior probabilidade de morrer de câncer de mama do que as mulheres brancas. Um estudo coordenado pelo Instituto apontou que mulheres pretas têm 57% mais chance de morrer pela doença do que mulheres brancas, enquanto entre mulheres pardas essa probabilidade é 10% maior. (Serviços e Informações do Brasil)
Esse cenário não significa que a raça, isoladamente, determine o desenvolvimento ou o desfecho da doença. A realidade é muito mais complexa. Pesquisadores investigam uma combinação de fatores biológicos, genéticos, ambientais, comportamentais e sociais.
E é justamente nessa combinação que a desigualdade racial se torna fundamental para compreender o problema.
Um câncer que exige diagnóstico no tempo certo
O câncer de mama é atualmente o câncer mais incidente entre as mulheres brasileiras, quando excluídos os tumores de pele não melanoma. O INCA estima 78.610 novos casos por ano no Brasil no triênio 2026–2028. Em 2024, foram registrados 20.849 óbitos pela doença. (Serviços e Informações do Brasil)
A detecção precoce é um dos principais fatores associados a melhores resultados no tratamento. Quando identificado e tratado em tempo oportuno, o câncer de mama pode apresentar bom prognóstico.
O problema é que o caminho entre perceber um sinal suspeito e chegar ao diagnóstico e tratamento pode ser desigual.
O próprio Ministério da Saúde reconhece, em seu Boletim Epidemiológico sobre mortalidade por câncer de mama segundo raça/cor, que fatores sociais, culturais e econômicos podem limitar o acesso à prevenção, ao diagnóstico precoce e ao tratamento oportuno.
Portanto, quando se fala em Outubro Rosa, não basta perguntar se uma mulher conhece a importância da prevenção.
É necessário perguntar também:
Ela consegue chegar ao serviço de saúde?
Consegue realizar os exames necessários?
Recebe o resultado em tempo adequado?
Consegue chegar a um serviço especializado quando necessário?
É acolhida e tratada com dignidade?
Essas perguntas são particularmente importantes quando analisamos a realidade da população negra.
Mulheres negras e o câncer de mama agressivo
Um dos aspectos que mais chama a atenção dos pesquisadores é a ocorrência de formas mais agressivas do câncer de mama entre mulheres negras.
O estudo MANTUS — Mulheres Negras e Câncer de Mama Triplo Negativo: Desafios e Soluções para o SUS, coordenado pelo INCA, investiga especificamente o chamado câncer de mama triplo negativo (TNBC).
Esse subtipo apresenta características clínicas que podem dificultar o tratamento e tem maior ocorrência proporcional entre mulheres negras em diferentes países. A pesquisa brasileira procura compreender o fenômeno considerando conjuntamente fatores biológicos, genéticos, ambientais, comportamentais e sociais. (Serviços e Informações do Brasil)
É importante, entretanto, evitar uma interpretação equivocada: não se trata de afirmar que mulheres negras necessariamente desenvolverão um câncer mais agressivo por causa da cor da pele.
O que a ciência demonstra é uma diferença de ocorrência e de desfechos que precisa ser investigada. E, ao investigar essa diferença, é impossível ignorar as desigualdades sociais e o acesso desigual à saúde.
O próprio INCA destaca que o menor acesso aos serviços de saúde é uma das hipóteses consideradas na investigação. (Serviços e Informações do Brasil)
A desigualdade também aparece nos exames
A desigualdade racial não está apenas nos números de mortalidade.
Dados utilizados pelo INCA mostram que o acesso à mamografia varia conforme fatores sociais e econômicos. Na Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, a realização do exame entre mulheres de 50 a 69 anos apresentou diferenças segundo escolaridade, renda e cor ou raça. A menor proporção de realização foi observada entre mulheres pardas. (Serviços e Informações do Brasil)
Isso demonstra que uma política de prevenção precisa ir além da divulgação de informações.
Informação sem acesso não produz equidade.
Uma mulher pode saber que precisa procurar atendimento, mas encontrar dificuldades para conseguir consulta, transporte, exame, diagnóstico ou tratamento.
Por isso, a prevenção precisa caminhar junto com políticas públicas capazes de garantir que o cuidado efetivamente chegue a quem dele necessita.
E o que isso significa para o Rio Grande do Sul?
O debate assume uma dimensão especial no Rio Grande do Sul.
O Estado apresenta uma das maiores taxas de mortalidade por câncer de mama do Brasil. Segundo dados do INCA, a Região Sul está entre as regiões brasileiras com maiores taxas de mortalidade pela doença, e o Rio Grande do Sul aparece entre as unidades da Federação com as maiores taxas ajustadas de mortalidade. (Serviços e Informações do Brasil)
Dados mais recentes da Secretaria Estadual da Saúde mostram que a taxa de mortalidade por câncer de mama no Rio Grande do Sul foi de 25,35 óbitos por 100 mil mulheres em 2025. O relatório estadual também aponta diferenças importantes entre as regiões de saúde do Estado. (Secretaria da Saúde)
O Estado vem adotando medidas para ampliar a capacidade de diagnóstico e acompanhamento. Em 2025, a Secretaria Estadual da Saúde informou a habilitação de 19 serviços especializados de referência à saúde da mulher (SERMulher), distribuídos pelas coordenadorias regionais de saúde, com profissionais responsáveis por acompanhar casos suspeitos ou diagnosticados e acelerar o processo entre a suspeita, o diagnóstico e o início do tratamento. (Secretaria da Saúde)
Ainda assim, os indicadores mostram que existe espaço significativo para melhorar o rastreamento.
O Observatório do Câncer do Rio Grande do Sul, mantido pela Secretaria Estadual da Saúde, informa que a cobertura do rastreamento por mamografia deve ser acompanhada município a município e estabelece parâmetros para identificar locais muito abaixo, abaixo ou dentro das metas. (Observatório do Câncer RS)
Um dado chama particularmente a atenção: segundo o Observatório, entre 2014 e 2022, a periodicidade bienal das mamografias de rastreamento no Rio Grande do Sul foi, em média, de apenas 22,8%. (Observatório do Câncer RS)
Isso significa que a discussão sobre o câncer de mama no Estado não pode ficar restrita às campanhas de outubro. É necessário pensar em uma política permanente de prevenção, diagnóstico, tratamento e acompanhamento.
Quando raça e território se encontram
Para uma organização historicamente comprometida com a valorização da população negra, como a Sociedade Beneficente Floresta Aurora, existe uma dimensão ainda mais profunda nessa discussão.
A saúde da população negra não pode ser analisada apenas pela perspectiva individual. É necessário considerar o impacto das desigualdades históricas sobre as condições de vida e sobre o acesso aos serviços públicos.
A própria Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul reconhece essa questão.
A Política Estadual de Saúde da População Negra, estabelecida pela Lei Estadual nº 16.440, de 19 de dezembro de 2025, reconhece que desigualdades históricas, sociais e econômicas impactam diretamente as condições de saúde da população negra. A política também estabelece entre seus objetivos a promoção da equidade no acesso aos serviços e o enfrentamento do racismo institucional na saúde. (Secretaria da Saúde)
Esse reconhecimento é fundamental.
Quando uma mulher negra vive em um território onde existem dificuldades de transporte, menor renda, menor acesso a serviços especializados ou barreiras institucionais, o diagnóstico de uma doença como o câncer de mama não acontece nas mesmas condições que para uma mulher que possui acesso facilitado à rede privada ou a serviços especializados.
Por isso, equidade não significa oferecer exatamente a mesma coisa para todas as pessoas. Significa reconhecer desigualdades existentes e criar condições para que todas tenham efetivamente a mesma possibilidade de cuidar da própria saúde.
O racismo também precisa entrar nessa conversa
Falar sobre saúde da população negra exige enfrentar um assunto que durante muito tempo permaneceu invisibilizado: o racismo institucional.
A Secretaria Estadual da Saúde afirma que sua política de equidade atua no combate ao racismo, à discriminação e às diferentes formas de preconceito nos serviços de saúde. (Secretaria da Saúde)
Essa discussão também aparece na oncologia.
Em 2025, o INCA divulgou dados segundo os quais aproximadamente 20% das mulheres negras relataram ter sofrido discriminação racial durante o tratamento do câncer de mama. (Serviços e Informações do Brasil)
Isso revela que a experiência da doença não termina no diagnóstico.
Para algumas mulheres, ela pode envolver também experiências de preconceito, dificuldades de comunicação, sensação de não serem ouvidas e barreiras adicionais dentro do próprio sistema de saúde.
Uma campanha verdadeiramente comprometida com a vida das mulheres precisa reconhecer essa realidade.
Outubro Rosa precisa ser para todas
O Outubro Rosa nasceu como um movimento de conscientização e, ao longo das décadas, transformou-se em uma mobilização mundial em torno da prevenção e do diagnóstico precoce.
No Brasil, a história das políticas de controle do câncer de mama também está ligada à construção de uma política pública de atenção integral à saúde da mulher. O INCA registra como marco a inclusão do controle do câncer de mama no Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher, em meados dos anos 1980. Posteriormente, novas iniciativas ampliaram as estratégias de informação, prevenção, detecção precoce e organização da rede de atendimento. (Serviços e Informações do Brasil)
Hoje, porém, os dados indicam que a campanha precisa avançar.
O Outubro Rosa precisa falar sobre prevenção, mas também sobre acesso.
Precisa falar sobre autocuidado, mas também sobre políticas públicas.
Precisa incentivar a realização dos exames, mas também cobrar que esses exames estejam disponíveis.
Precisa estimular o diagnóstico precoce, mas também defender que o tratamento comece em tempo adequado.
E precisa falar de saúde da mulher sem deixar de falar de raça, território, renda e desigualdade.
Uma agenda permanente de cuidado
A luta contra o câncer de mama não termina no dia 31 de outubro.
Ela continua nas unidades básicas de saúde, nos hospitais, nos serviços especializados, nas comunidades, nas famílias e também nas organizações da sociedade civil.
Para as mulheres negras, essa agenda precisa incluir:
- ampliação do acesso à prevenção e ao diagnóstico precoce;
- fortalecimento do SUS;
- melhoria da cobertura do rastreamento;
- redução das desigualdades territoriais;
- qualificação dos profissionais de saúde para o atendimento à população negra;
- enfrentamento do racismo institucional;
- produção e divulgação de dados de saúde segundo raça/cor;
- garantia de diagnóstico e tratamento em tempo oportuno;
- atenção especial às formas mais agressivas da doença;
- fortalecimento das políticas de equidade racial.
O próprio Ministério da Saúde vem ampliando a análise dos indicadores por raça/cor. O Boletim Epidemiológico publicado em 2025 analisou a mortalidade feminina por câncer de mama entre 2010 e 2024, mostrando que a taxa de mortalidade da população negra — considerando mulheres pretas e pardas — passou de 11,7 para 15,7 óbitos por 100 mil mulheres no período, um crescimento de 34%.
No mesmo estudo, considerando apenas a mortalidade prematura, entre 30 e 69 anos, a taxa da população negra passou de 16,5 para 22,0 por 100 mil mulheres, crescimento de 33,5%.
São números que não podem ser ignorados.
O compromisso com a vida
O rosa do Outubro Rosa simboliza esperança, prevenção e cuidado.
Mas, para que essa esperança alcance todas as mulheres, é preciso enxergar as desigualdades que existem por trás dos números.
Para a população negra, especialmente para as mulheres negras, enfrentar o câncer de mama significa também defender o direito à saúde, combater o racismo institucional e garantir que o lugar onde uma mulher nasce, sua renda, sua cor ou sua condição social não determinem suas chances de receber um diagnóstico precoce e um tratamento adequado.
Neste Outubro Rosa, a Sociedade Beneficente Floresta Aurora reafirma que cuidar da saúde das mulheres negras é também cuidar da democracia, da cidadania e do direito fundamental à vida.
Prevenção é informação.
Diagnóstico precoce é acesso.
Tratamento é direito.
Equidade racial também é saúde.
Fontes oficiais consultadas
- Instituto Nacional de Câncer (INCA) — Ministério da Saúde: dados sobre câncer de mama, mortalidade, prevenção, rastreamento e estudo sobre mulheres negras e câncer de mama triplo negativo. (Serviços e Informações do Brasil)
- Ministério da Saúde — Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente: Boletim Epidemiológico – Mortalidade por câncer de mama e colo do útero na população feminina segundo raça/cor da pele, 2025. (Serviços e Informações do Brasil)
- Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul — Observatório do Câncer RS: indicadores estaduais de câncer de mama, rastreamento e mamografia. (Observatório do Câncer RS)
- Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul — Área Técnica da Saúde Negra e da População Quilombola: Política Estadual de Saúde da População Negra e ações de equidade. (Secretaria da Saúde)
- Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul — Relatório Anual de Gestão 2025: dados estaduais de mortalidade por câncer de mama e organização da rede de atenção. (Secretaria da Saúde)
- IBGE: Censo Demográfico e estatísticas populacionais utilizadas nas análises oficiais de saúde segundo raça/cor. (IBGE)
Observação editorial: os dados de 2024 utilizados no Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde são preliminares, conforme indicado na própria publicação. As categorias “população negra” utilizadas no documento correspondem à soma de mulheres pretas e pardas, conforme o Estatuto da Igualdade Racial.



