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Lanceirinhos Negros: quando a cultura transforma memória em futuro

Acampamento promovido pelo Afro-Sul Odomode reúne crianças, famílias e educadores em uma experiência de cultura, aprendizagem e valorização da história negra no Rio Grande do Sul

Em Porto Alegre, preservar a memória também significa criar espaços para que as novas gerações conheçam, vivenciem e recontem a história de seus antepassados.

Foi com esse propósito que o Instituto Sociocultural Afro-Sul Odomode realizou, nos dias 12 e 13 de setembro de 2026, mais uma edição do projeto Lanceirinhos Negros, na Sociedade Beneficente Cultural Floresta Aurora. A iniciativa apresenta às crianças e aos jovens uma perspectiva antirracista sobre a participação da população negra na história do Rio Grande do Sul, tendo como uma de suas referências os Lanceiros Negros. ([33º Porto Alegre em Cena][4])

Na manhã do dia 13, depois do despertar, da higiene e do café da manhã, os participantes deram continuidade a uma programação que transformou aprendizado em experiência. Contação de histórias, dança, percussão, composição musical e grafite foram algumas das atividades desenvolvidas pelos grupos.

Cada linguagem artística abriu uma possibilidade diferente de expressão. A história foi contada; a música foi experimentada; o corpo tornou-se instrumento de dança; o ritmo ganhou espaço na percussão; e o grafite possibilitou transformar ideias e referências em imagens.

Também houve espaço para a infância simplesmente ser infância. Brinquedos infláveis, brincadeiras, a chegada dos pais e momentos de convivência fizeram parte da programação, encerrada com um churrasco de confraternização reunindo crianças, familiares e educadores.

Foram dois dias de convivência, cultura e aprendizagem, mas também de construção de memória.

Uma história que precisa continuar sendo contada

O trabalho desenvolvido pelo Afro-Sul Odomode possui uma trajetória que remonta a 1974, quando jovens negros criaram, em Porto Alegre, o Grupo Afro-Sul de Música e Dança. A partir da pesquisa e valorização de referências culturais africanas e afro-brasileiras, o grupo construiu uma atuação que passou pela música, dança, carnaval, artes e ações socioeducativas voltadas também ao público infantojuvenil. ([Instituto Sociocultural Afro-Sul Odomode][1])

O projeto Lanceirinhos Negros insere-se nessa trajetória. Mais do que falar sobre o passado, a proposta procura criar condições para que crianças e jovens tenham contato com uma história que muitas vezes foi apresentada de maneira incompleta ou distante da perspectiva da população negra.

A participação dos Lanceiros Negros na Revolução Farroupilha é um dos temas trabalhados pelo projeto. A proposta é apresentar às novas gerações o protagonismo negro e estimular uma compreensão crítica sobre esse episódio da história do Estado. ([33º Porto Alegre em Cena][4])

Nesse sentido, a cultura deixa de ser apenas entretenimento. Ela passa a funcionar como ferramenta de educação, pertencimento e preservação da memória.

Floresta Aurora: um patrimônio vivo

A realização do acampamento na Sociedade Beneficente Cultural Floresta Aurora estabelece uma relação simbólica especialmente significativa.

Fundada em 1872, dezesseis anos antes da abolição oficial da escravidão no Brasil, a Floresta Aurora nasceu em um período em que a população negra enfrentava profundas restrições sociais e econômicas. Ao longo de mais de 150 anos, a instituição tornou-se espaço de solidariedade, sociabilidade, cultura, organização e preservação da memória negra em Porto Alegre. ([Floresta Aurora][2])

A história da Floresta Aurora demonstra que preservar cultura não significa apenas guardar objetos, documentos ou fotografias. Significa também manter vivos os espaços onde uma comunidade se encontrou, construiu vínculos, celebrou, educou seus filhos, enfrentou dificuldades e transmitiu conhecimentos entre gerações.

A própria instituição define como parte de sua missão promover a inclusão social e cultural da população negra e fortalecer sua identidade e coesão comunitária. ([Floresta Aurora][2])

Essa missão encontra, no encontro com o Afro-Sul Odomode e os Lanceirinhos Negros, uma expressão concreta: uma geração ensinando outra a reconhecer suas raízes.

Preservar é transmitir

A história de um povo não sobrevive apenas nos livros.

Ela permanece nas músicas, nas danças, nas histórias contadas pelos mais velhos, nos instrumentos, nas festas, na culinária, nas manifestações religiosas e culturais, nas fotografias, nos espaços de convivência e, principalmente, na capacidade de transmitir esses conhecimentos às crianças.

É por isso que iniciativas como o Lanceirinhos Negros possuem importância que ultrapassa os dois dias de um acampamento.

Quando uma criança aprende uma história sobre seus antepassados, experimenta um ritmo, dança, desenha, participa de uma roda de conversa ou simplesmente ocupa um espaço de convivência com outras crianças negras, está também construindo uma relação com a própria identidade.

E quando uma instituição centenária como a Floresta Aurora abre suas portas para essa experiência, estabelece-se uma ponte entre diferentes gerações da história negra de Porto Alegre.

De um lado, uma instituição fundada no século XIX, criada em um contexto de luta, solidariedade e busca por dignidade.

De outro, uma iniciativa cultural surgida na década de 1970, dedicada à valorização das referências africanas e afro-brasileiras por meio da arte e da educação.

E, no centro dessa relação, estão as crianças.

Elas representam não apenas o presente, mas a continuidade dessa história.

Memória que aponta para o futuro

O encerramento do Acampamento dos Lanceirinhos Negros, com a presença das famílias e o churrasco de confraternização, traduz justamente essa dimensão coletiva.

A memória não pertence somente ao passado. Ela é construída no presente e transmitida para o futuro.

Preservar a história do povo negro no Rio Grande do Sul significa reconhecer suas contribuições, suas experiências, suas lutas e suas manifestações culturais. Significa também garantir que as próximas gerações tenham acesso a referências capazes de ampliar sua compreensão sobre a sociedade em que vivem.

Projetos como o Lanceirinhos Negros e instituições como a Floresta Aurora demonstram que a preservação da memória pode acontecer de maneira viva: cantando, dançando, contando histórias, criando, convivendo e ensinando.

Porque uma cultura permanece viva quando consegue atravessar gerações.

E cada criança que participa de uma experiência como essa leva consigo um pouco dessa história.

São memórias que se transformam em identidade, identidade que se transforma em pertencimento e pertencimento que ajuda a construir o futuro.

Por isso, ao final de dois dias de atividades, fica a saudade — mas também fica algo maior: a certeza de que uma história continua sendo contada.

Fontes consultadas: Instituto Sociocultural Afro-Sul Odomode; MuseusBr/Ibram; Porto Alegre em Cena; Instituto Humanitas Unisinos; Sociedade Beneficente Cultural Floresta Aurora; Secretaria de Estado da Cultura do RS e registros jornalísticos sobre a trajetória da Floresta Aurora. ([Instituto Sociocultural Afro-Sul Odomode][1])

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